sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Out of Service




"In depression the whole personality has crashed, leaving you as exposed as a chick in the Arctic."

Sunbathing in the Rain, Gwyneth Lewis








sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Solidão




Solidão
Há dias em que qualquer um é multidão
Velha amiga, me dê a mão
Que hoje uma gota é dilúvio e um copo é bebedeira
Que hoje um pingo é frase inteira 
Velha herdeira, me dê a mão
Que o silêncio é bom conselho
E o espelho é inspiração




"Solidão é o modo que o destino encontra para levar o homem a si mesmo.
Hermann Hesse

domingo, 18 de novembro de 2012

Que os velhos mortos cedam lugar aos novos mortos



"O dia começara mal para ela. Seu marido (havia vinte e cinco anos tinham vivido ali durante algum tempo - eram, na época, recém-casados -, mas depois tinham se instalado em Praga, onde ele morrera fazia dez anos) estava enterrado no cemitério dessa cidadezinha, conforme um estranho pedido que expressara em suas últimas vontades. Ela adquirira então uma concessão por dez anos, e constatara havia alguns dias que o prazo tinha expirado e que se esquecera de renová-la. [...]

Embora conhecesse de cor o caminho que conduzia ao túmulo do marido, naquele dia pensou estar vendo o cemitério pela primeira vez. Não conseguia encontrar a sepultura, e achou que não sabia onde estava. Afinal compreendeu: onde ficava antigamente o monumento de arenito com o nome querido de seu marido, erguia-se agora (teve a certeza de reconhecer o lugar pelas duas sepulturas vizinhas) um monumento de mármore preto cujo nome, em letras douradas, lhe era absolutamente desconhecido.

Irritada, dirigiu-se à administração do cemitério. Lá foi informada que as sepulturas eram automaticamente retomadas com o término das concessões. Reclamou por não ter sido avisada da necessidade de renovar a concessão, mas explicaram-lhe que havia pouco lugar no cemitério e que os velhos mortos deviam ceder lugar aos novos mortos."


Trecho de
Risíveis Amores, Milan Kundera.

Pra não quebrar a tradição.

Cemitério Judeu em Praga
Fonte:
architecture.about.com



domingo, 7 de outubro de 2012

Manual da malandragem literária




Dicas para os citadores de redes sociais pelo menos fingirem que leram


A preguiça de ler está aí, é uma triste realidade e se eu quiser evitar um diálogo com quem não lê vou ter que passar a viver numa semi-Sibéria intelectual, fato. Muitos não-leitores que querem parecer conhecedores de determinado livro ou autor buscam como atalho as citações - se limitam a conhecer os grandes da música e literatura nesses tempos de Facebook através do combo foto bonitinha + citação do suposto autor, como se um punhado de frases pudesse resumir a obra de alguém. Com o fenômeno, aposto que tem muito gênio da literatura se revirando no caixão por aí, sendo julgado como isso ou aquilo por uma meia dúzia de frases selecionadas de suas obras - ou não.


Caio Fernando Abreu, rei das citações de Facebook, #chatiado [sic] porque 2/3 das citações atribuídas a ele não são de sua autoria, segundo reportagem do Diário Pernambucano.

Milan Kundera já havia observado que a literatura estava sendo substituída por um punhado de frases de efeito - e isso há décadas atrás. Nesses tempos de preguiça generalizada evoluída (principalmente no pensar) o fast food literário está mais do que em voga. Muitos opinam sobre este ou aquele autor ou o elegem como favorito tendo apenas como referência um punhado de citações de livros que nunca leram, e que nem ao certo sabem se a suposta autoria procede. [Isso quem se preocupa o mínimo em passar uma imagem de intelectualidade, porque nesses tempos de tanto faz, até escrever errado está sendo aceito e tido como inquestionável por uns e outros]. 

Pois bem. Peregrinando pela internet, achei uma matéria no mínimo interessante da Revista Veja de abril de 2008 (pseudointelectuais are gonna hate) sobre o livro Como Falar dos Livros que Não Lemos? do psicanalista francês Pierre Bayard. A matéria Manual da malandragem literária comenta o livro que ensina quem leu um livro pela metade, pulou páginas ou até nunca o leu, e por que não quem só leu uma citaçãozinha ou outra, a tecer comentários e se passar por um exímio leitor.


A arte de não ler


Preguiça à parte, a matéria da Veja toca num ponto importante: nesse oceano literário, o que vale a pena ler afinal? Não temos tempo de vida hábil para ler todas as publicações do mundo, e entre tudo o que existe convenhamos que há muita porcaria. Um trecho de Livros e Leitura do Schopenhauer é citado: 

"Para ler o bom, uma condição é não ler o ruim: porque a vida é curta, e o tempo e a energia, escassos"

Seria o outro lado da moeda. Já que não se pode ler tudo, acabamos juntando quando necessário o pouco de informações que temos ou confiamos na opinião de quem já leu quando questionados sobre esse ou aquele livro/autor que até gostaríamos de ter lido, mas que não teve como até então. Acho que não vamos para o inferno por isso. Quem nunca? Através de citações e resenhas, podemos também avaliar a qualidade do que vamos decidir ler - o que não é 100%, convenhamos, mas muitas vezes ajuda.

Confira uma parte dela, e, para os menos preguiçosos mais interessados, a matéria na íntegra através do link. Ou seja, leia-a para aprender a comentar o que não leu (que ironia) com um mínimo de embasamento. No mínimo engraçado.


sábado, 6 de outubro de 2012

Simbologia e loucura


"As figuras simbólicas facilmente se tornam silhuetas de pesadelo. Disso é testemunha essa velha imagem da sabedoria, tão freqüentemente traduzida, nas gravuras alemãs, por um pássaro de pescoço comprido cujos pensamentos, ao se elevarem lentamente do coração à cabeça, tem tempo para serem pesados e refletidos; símbolo cujos valores se entorpecem por serem demasiado acentuados: o longo caminho de reflexão torna-se, na imagem, o alambique de um saber sutil, instrumento que destila as quintessências. O pescoço do Gutemensch alonga-se indefinidamente a fim de melhor configurar, além da sabedoria, todas as mediações reais do saber; e o homem simbólico torna-se um pássaro fantástico cujo pescoço desmesurado se dobra mil vezes sobre si mesmo — ser insensato, a meio caminho entre o animal e a coisa, mais próximo dos prestígios próprios à imagem que do rigor de um sentido. Esta sabedoria simbólica é prisioneira das loucuras do sonho."

Foucault, História da Loucura na Idade Clássica (1964).

Livrão!! Como diria Guimarães Rosa (referindo-se a sua própria obra), é uma "literatura para bois": não é feito para cavalos, que comem apressadamente, mas para bois, os quais engolem, regurgitam, mastigam devagar e só engolem de vez quanto tudo está bem ruminado. Só assim a comida é digerida e irá por fim fecundar a terra. 


Tukkiki Manomee, Long necked bird

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

O que o amor quer

[O que o amor quer é me deixar de joelhos. É me deixar doente. É me fazer acreditar de novo para eu me entregar novamente. Quer golpear minhas pernas, me fazer despencar, me deixar sangrar, mas me manter viva. Ele me quer à deriva. Quer me fazer esperar, quer ter do que rir. Quer cortar meus tendões e me fazer cair, mais baixo que o chão, mais baixo que tudo. Quer que eu vá à luta sem escudo, sem espada. O amor quer é que eu dê tudo em troca de nada. O amor quer é me ferir na batalha. O amor quer é meu reino sem muralha. Ele quer em pleno voo cortar minha asa, quer desgraça. O amor quer que eu saia de casa para me apedrejar no meio da praça. Ele quer é me operar sem anestesia, quer que eu pule na piscina vazia. Quer que eu siga com meus próprios pés rumo ao sacrifício. Ele quer é que eu pule do precipício. Quanto tempo mais eu terei que pagar por isso?]

Ana, Aron Wiesenfield
In my place, in my place
Were lines that I couldn't change
I was lost, oh yeah 

I was lost, I was lost
Crossed lines I shouldn't have crossed
I was lost, oh yeah 

Yeah how long must you wait for it?
Yeah how long must you pay for it?
Yeah how long must you wait for it?

Oh for it

Coldplay / In my place




sexta-feira, 28 de setembro de 2012

A verdadeira indigestão

 Da série Crônicas do pré-embarque 

  Sobre monstros internos e maionese de azeitonas


Naquele dia acordei com a maior dor de cabeça que já acometeu um ser vivo possuidor de cabeça, tenho certeza. Tinha dor de cabeça de sobra pra dividir com um irmão siamês, se fosse o caso. Levantei apenas pra vomitar a alma e os dois comprimidos de Dipirona, que após engolidos jogaram uma partida rápida no meu estômago, até serem expulsos aos 10 do primeiro tempo. A partir dali, prometi ficar na cama sofrendo pelo resto do dia. Mas não, embarcaria no dia seguinte e as contas a pagar não tinham pena do meu mal-estar, enquanto o banco online, sarcástico que só ele, resolveu ficar fora do ar pra me assassinar de vez.
  
OK, fui cambaleante ao banco, paguei a bendita conta, passando por 4 caixas eletrônicos, que em complô com o banco online, resolveram igualmente ficar fora do ar. Essa máfia de sádicos da modernidade. Contas pagas depois, encontrei com um amigo que, vendo meu estado, me sugeriu um agradável passeio de fim de tarde ao hospital. E lá fomos nós esperar horas numa cadeira de recepção com um parco sinal de telefonia celular, até eu ser atendida por uma médica convencida de que as minhas dores eram ou falta de óculos, ou tensão pré-embarque. Ela lá, falando sobre as inúmeras causas de dores de cabeça e eu lá, falando aham, com cara de Esfinge como quem diz "Decifra a minha dor de cabeça ou devoro-te. Ou melhor, vomito-te" e esperando minha injeção de Plasil que eu sabia que ela fatalmente receitaria - médicos não são nada originais mesmo - pra apaziguar a Terceira Guerra Mundial que se passava no meu estômago e sumir dali, enfim.

– Bem, te receitarei Plasil. – disse ela, a descobridora da pólvora. Agradeci e parti pra enfermaria pra tomar o meu soro com remedinho antes de desaparecer.

Meia hora se passou, o remedinho já encontrava-se veia adentro e nada de aparecer uma enfermeira caridosa pra me livrar da agulha e me deixar ir pra casa. O que você faria? Eu podia ser a paciente, mas eu não estava com paciência alguma. Tentei esperar até começar a ficar verde de impaciência, me tornar uma quase-Hulk, arrancar agulha, o sangue jorrar longe, sujar tudo e eu fugir dali linda e tonta na minha melhor performance cinematográfica. Liberdade, ainda que sangrenta tardia. Saí e lá estava meu - esse sim - paciente amigo ainda me esperando. Pudemos então ir pra casa felizes e contentes. E você deve estar se perguntando o que tem a maionese de azeitonas a ver com isso tudo.

Pois bem, acontece que além da Esfinge e do Hulk que em mim habitam, há também como inquilina uma ogra esfomeada. Já em casa e melhor, deitei na cama e simplesmente não conseguia dormir pensando em devorar um pão com maionese de azeitonas. Veja bem, eu havia passado mal o dia inteiro, comido muito pouco, e necessitava desesperadamente devorar um pacotinho daqueles de maionese de azeitonas. Quase um suicídio pra um estômago sensível do mal-estar do dia inteiro. Resisti bravamente - orgulhe-se que não é todo dia - e não ataquei o molho mortal que ria de mim na geladeira; sim, eu podia ouvi-lo, envolto numa luz divina e com um coral de anjos cantando ao fundo.

Fico pensando em quantas vezes na vida a gente tem certeza de que fazer A ou B não trará nada de bom, mas mesmo assim vai, arrisca e quebra a cara bonito. Em quantas vezes constatamos que a voz interior mais uma vez estava certa. Que as pessoinhas que tentam te convencer seguindo os próprios interesses não sabem nada e na verdade nem se importam com o que você mesmo necessita ou quer pra você, que com certeza não é uma colherada da maionese de azeitonas quando seu organismo está debilitado demais pra tal.

Sei que quase sempre acabo ouvindo os outros e nadando numa piscina de maionese de azeitonas quando deveria ficar na dietinha light da torrada com chá preto. É insossa, eu sei, mas evita a dor de barriga do dia seguinte. E eu estou assim ultimamente, me poupando do que eu sei que não vai prestar e tentando como posso deixar a ogra esfomeada adormecida no seu sono leve. Ou pelo menos deveria estar. 

Será que existe um monstro famoso e mítico com a incrível capacidade de procurar o que não presta e ainda mentir pra si mesmo ou eu vou ter que inventar um agora pra poder citar aqui? Num momento de delírio inspiração, vou chamá-lo por enquanto de Hellmann's mesmo - não é um belo nome pra monstro? Hellmann's, meu monstrinho particular que é ótimo, mas faz um mal danado a longo prazo, e que pelo menos nesse dia do enjoo maldito eu consegui vencer. Mas como é que faz nos outros dias pra fugir do que não presta mesmo? Afinal, o monstro pode estar ali sempre, mas a gente não é heroína todo dia. Passa a colher.


quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Ship of fools


"A água e a navegação têm realmente esse papel. Fechado no navio, de onde não se escapa, o louco é entregue ao rio de mil braços, ao mar de mil caminhos, a essa grande incerteza exterior a tudo. É um prisioneiro no meio da mais livre, da mais aberta das estradas: solidamente acorrentado à infinita encruzilhada. É o Passageiro por excelência, isto é, o prisioneiro da passagem. E a terra à qual aportará não é conhecida, assim como não se sabe, quando desembarca, de que terra vem. Sua única verdade e sua única pátria são essa extensão estéril entre duas terras que não lhe podem pertencer."

Foucault, A História da Loucura na Idade Clássica (1964).

E eu lendo isso daqui do navio. Nada mais oportuno.


A Nave dos Loucos, Hieronymus Bosch


quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Bukowski


"Born into this

Into hospitals which are so expensive that it's cheaper to die
Into lawyers who charge so much it's cheaper to plead guilty
Into a country where the jails are full and the madhouses closed
Into a place where the masses elevate fools into rich heroes"


http://www.youtube.com/watch?v=OccJM75s64k






domingo, 9 de setembro de 2012

Vômito



Talvez você seja apenas novo demais. Talvez tenha falado mentiras demais, e eu sei que você mentiu para você também e chegou até a acreditar nessa historinha inverossímil mal fantasiada de verdade. Você chegou a concordar com os próprios erros, porque encontrou um motivo nobre para eles existirem. Vestiu suas justificativas de roupas novas e admirou-as, enfim. Mas no fundo, lá no fundo desse peso latente, dessa leveza aparente, você não conseguiu se enganar. E era amargo. E você, lá no fundo, no âmago do carrasco que mora aí dentro, você criticou tudo isso, sentiu a feiúra por baixo das roupas novas e sentiu nojo. E esse sentimento, meu caro, vai te acompanhar pelo resto da vida. Por mais que você se sinta especial, por mais que considere a sua dor mais dolorida que a dos outros, por mais que considere passar por esse caminho feito de gente e dor alheia para chegar onde quer, você não irá muito longe.  Porque o poder do carrasco só se legitima enquanto houver vítima. Pobre carrasco o sem vítimas. Torna-se bichinho acuado, chora no canto e fica amável, sensível até, chorando a partida do que lhe emprestava a dor para que sentisse prazer. É de dar pena. Portanto, faça-me o favor de não dar mais sinais de vida. Eu estou forte e insensível e tenho vontade de vomitar ao lhe ver. Não acredita? Não vê? Pois bem, sinta.


Picasso, Weeping Woman



sábado, 8 de setembro de 2012

Reincidência





Vasculho, procuro, reviro e não tem nada ali. As linhas na palma da mão não levam a lugar algum. Alguém por favor troque a pilha da bola de cristal que eu não vejo nem vento.  É que eu procuro pessoas que abram o coração, que surpreendam, que chutem a porta. Não essa coisa morta, sem sal, com sono, com medo, com vergonha, que não sabe o que quer. Não os que quando querem transgredir, agridem. Não os seres sem cor e sem luz própria. Satélites de um planeta qualquer. E questiono a atitude dos que dizem me querer bem por aí, mas são sempre vencidos pela força dos maus hábitos. Meteoros saídos de não-sei-onde. As suas mãos sujas são toleráveis até que se sente à mesa. Mesmas atitudes, situações diferentes e mais uma cratera foi aberta. Há gente que é mesmo ilha deserta.

E eu devo ser mesmo antiquada, esquisita, reclamona. Pessoas cujas atitudes ferem a minha natureza devem ser eliminadas do jogo. O próprio jogo na verdade me cansa, e se for pra jogá-lo, que seja pelo menos por diversão, e não arrastada pela força dos fatos ou por um mau instinto qualquer. Não vejo futuro. Que morra então. Me deixa aqui, leve, pluma, pena,  dançando no meu próprio ritmo, orbitando na cadência da reincidência. 



sexta-feira, 7 de setembro de 2012

"Não era tudo uma loucura?"

'Seria tudo isso verdadeiro e genuíno? Também ele estava rindo, divertia-se e procurava a alegria e o amor com olhos ávidos - mas, ao mesmo tempo, havia dentro dele uma pessoa que não acreditava em nada daquilo, que olhava para tudo com suspeita e zombaria. Seriam diferentes as coisas para os outros? Sabia-se tão pouco, tão desesperadamente pouco das outras pessoas. Aprendia-se uma centena de datas ridículas e os nomes de velhos reis ridículos quando se estava na escola. [...] Mas das criaturas humanas nada se sabia. Se uma campainha deixava de tocar, se um fogão começava a desprender fumaça, se uma engrenagem numa máquina enguiçava, sabia-se imediatamente o que devia ser feito e agia-se com presteza; o defeito era encontrado e sabia-se como corrigi-lo. Mas o que havia dentro da pessoa, a mola mestra secreta que era só o que dava sentido à vida, a única coisa dentro de nós que tem vida e é capaz de sentir prazer e dor, de desejar a felicidade e experimentá-la - isso era desconhecido. Nada se sabia disso, absolutamente nada e se a mola mestra falhava, não havia remédio. Não era tudo uma loucura?

Enquanto ele bebia e ria com Teresina, essas questões subiam e desciam em outras regiões do seu espírito, ora perto, ora longe da consciência. Tudo era duvidoso, tudo se engolfava em incertezas. Se, ao menos, soubesse de uma coisa: aquela incerteza, aquela aflição, aquele desespero em plena alegria, aquela pressão de pensar e interrogar existiam também em outros homens ou eram coisas reservadas apenas para ele, Klein, o excêntrico?

Descobriu que era bem diferente de Teresina, pois ela era infantil e primitivamente sadia. Aquela mulher, como todo o mundo e como ele mesmo anteriormente, contava sempre com um futuro, com o dia de amanhã e com o dia depois de amanhã, com a duração. Do contrário, como poderia ela jogar e levar tão a sério o dinheiro? Mas com ele, como sabia intensamente, o caso era bem diferente. Para ele, por trás de cada pensamento e cada sentimento, estava a porta aberta que levava ao nada. Sem dúvida, sentia o temor de muitas coisas: da loucura, da polícia, da insônia e do medo da morte. Mas tudo o que temia desejava e procurava ao mesmo tempo. Sentia-se cheio de ardente anseio e curiosidade em relação ao sofrimento, à destruição, às perseguições, à loucura e à morte.

"Mundo cômico", murmurou ele para si mesmo, referindo-se não ao mundo que o cercava mas ao seu ser íntimo.'

Trecho de Klein e Wagner, da coletânea de contos O Último Verão de Klingsor, Hermann Hesse

[Não aceito como legítimo um "eu te amo" até que se tenha lido isso ou pelo menos me conhecido dessa forma - fora isso considero-o, porém, um ledo e agradável engano.]

Agradecimentos ao amigo que me emprestou o livro. 
Ilustração de Dave Lupton

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Resenhando o “Pra que ter razão se eu posso ser feliz?”



Terminei de ler o “Pra que ter razão se eu posso ser feliz?” positivamente surpresa e com a certeza da inadequação do título, que no original é – aí sim - “The Battersea Parkroad to Enlightenment”. Tradutores, vocês me envergonham. Quando ganhei o livro, me assustei com esse título com cara de autoajuda e me senti bem desmotivada. Mas vamos lá: chegou a mim, é pra ler. Afinal, livro ganho de presente tem que ser lido logo, pra satisfação do presenteador que vive perguntando o que você achou [não, isso não é sério]. E que bom que foi assim que ele veio parar nas minhas mãos, senão nunca iria comprá-lo. Mas pelo visto a galera por aí está mais preocupada em ser feliz do que em ter razão e optou por um nome mais rentável pro livro, porque a maioria gosta mesmo é do batido passo-a-passo da felicidade. Infalível, só que não.

E vamos ao conteúdo. Me deparei logo nas primeiras páginas com uma citação do Hermann Hesse e senti que tinha algo mais ali:

“A felicidade é um como, não um o quê; um talento, não um objeto”.

Mas espera aí... ah, não! Lá vem os "felizes" de novo tentando me convencer a usar menos preto e a sorrir mais - foi o que eu pensei que me esperava nas próximas páginas, apesar de mais incentivada a prosseguir. E não foi nem autoajuda e muito menos discurso estilo Ursinhos Carinhosos que eu achei ali. 

Encontrei nas páginas do livro de nome duvidoso a adorável Isabel, uma mulher um tanto cética e absolutamente normal (tenho medo do título, já que segundo amigos não me encaixo nele, mas vamos lá) que conta a sua busca pela iluminação e autoconhecimento com o delicioso e sarcástico humor britânico, o que torna as suas desventuras um tanto divertidas. 

É disso que eu estou falando, gente. Não é fingir que o mundo é cor-de-rosa, é fazer do limão uma limonada, rir dos próprios desfortúnios, e, como ela mesmo diz, usar tudo para o próprio crescimento. A vida é o azedo e o doce, pena que a maioria só admire um sabor e queira te convencer como fanáticos religiosos de que só há uma forma de se atingir o reino dos céus: que você TEM QUE SER FELIZ (ou pelo menos demonstrar isso) O TEMPO TODO. Assim até ser feliz fica chato, já que virou obrigação. E eu sou do contra, já vou avisando.

Mas vamos à busca interior de Isabel. Através de cursos, tratamentos, workshops e o diabo a quatro, de tai chi a hipnose, ela vai se redescobrindo e se conhecendo melhor. Um trecho pra você sentir o tom do livro:

“A lição era: Só por hoje, vou agir de uma maneira que admire em outra pessoa. Que ensinamento ridículo! Isso significava viver segundo meus próprios padrões? Ou seja: acordar a uma hora razoável, ir pra academia, vestir-me bem e não andar relaxada dentro de casa, trabalhar o tempo necessário no computador, não comer biscoitos o dia todo, enviar cartas de agradecimento por convites para jantar, estar eternamente de bom humor, ler bons livros, cozinhar refeições de verdade... Não sou capaz de manter esses padrões nem por dez minutos, que dirá por um dia. Acho que nunca vou viver de uma maneira que admire. Ainda estou tentando viver de uma maneira que eu possa tolerar".

Nem preciso falar que eu me identifiquei com o jeito irônico dessa linda que busca algo maior: iluminação, crescimento espiritual, uma existência mais satisfatória, chame do que quiser, e não sair sorrindo por aí como boba alegre por mais que pisem no seu pé ou roubem seu lugar na fila, como sugere o título.

Muito recomendo a leitura do “Pra que ter razão se eu posso ser feliz?”. É leve, é bem humorado e, o que é raro nos livros novos (pelo menos nos que eu tenho me deparado por aí), bem escrito. Atenção a isso: um livro bem escrito! Então, dê uma segunda chance ao título ruim, que vale a pena - chame de “The Battersea Parkroad to Enlightenment” quando perguntarem o que você está lendo pra não pegar mal, inspire-se e boa sorte na busca pela sua própria iluminação.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

As 6 coisas que eu odeio em você


Da fina arte de ser insuportável


Sabe, eu me amo.  Me amo tanto que me atrevo a começar um texto com essa frase, correndo o risco de me passar por uma vaca egoísta se você, leitor, não entender nada de amor próprio. E depois de tanta água passada debaixo da ponte, a gente percebe que vai ficando cada vez mais intolerante e que estar com alguém pode até ser legal, mas que estar sozinha é bem mais emocionante caso você tenha um (chato), dois (TENSO) ou mais (você é insuportável, suma do universo) dos defeitos que descreverei a seguir. Uma amiga diria que eu ando escolhendo demais, já eu diria que é o mínimo que se pode exigir pra uma convivência agradável.

Não vim falar dos tipos por todas conhecidamente odiados, os mal-educados, violentos e loucos, porque eu posso não ser das mais normais (vide o nome do blog), mas não rasgo dinheiro e como todo mundo nem em sonho quero um desses por perto. Eu quero falar é de coisas que alguns talvez considerem até aceitáveis nos dias de hoje, mas que me irritam de uma maneira muito especial. Você não precisa me amar também, mas se quiser entrar na fila, faça-me o favor de não se encaixar nas categorias abaixo descritas.


Você bebe demais

Você não sabe ficar sem beber. Você bebe pra vencer a timidez, porque está triste, porque está feliz, pra sair de casa, pra ficar em casa; e bebe muito. Você não vê problema em dirigir depois de beber uma garrafa inteira de vodka. Você acredita que o álcool não te deixa um saco, não prejudica seus reflexos nem te faz perder a consciência porque você é um tipo de ser humano especial, mutante, uma espécie de criatura mitológica que metaboliza o álcool melhor do que o resto da população mundial. Filho, não se engane: você é alcoólatra. E numa sociedade que permite e até incentiva o consumo exagerado do líquido que “o cão butô pra nór bebê”, eu não tenho nada a dizer pra você sem parecer uma tia chata dando conselho que você vai considerar desnecessário, afinal você sabe bem o que está fazendo e nunca colocaria a vida de alguém em risco. Aham. Me erra.
"Se eu pudesse, eu matarra mil!"


Você fuma demais

Você fuma tanto que todas as suas roupas, pele e cabelo já fedem a cigarro mesmo depois do banho. Seus dentes já estão amarelados e você tem um beijo sabor cinzeiro. Você precisa acender um cigarro de 5 em 5 minutos, acha que a fumaça que seu cigarro emana tem cheirinho de flores do campo e não deveria incomodar a essa espécie estranha dos não-fumantes. Querido, soprar a fumaça pro outro lado ameniza, mas não resolve. Fazer o quê se meu cabelo é insistente e cisma em sugar essa inhaca de nicotina e o meu faro apurado de sofredora de rinite alérgica detecta todo e qualquer sinal de cigarro e tenta me asfixiar assim, a sangue frio?

Senhor fumante, arrume uma senhora fumante, unam seus pulmões pretos e sejam felizes para sempre.

Começando cedo

Você escreve mal


Muita dor nesse momento. Herrar é umano, OK, mas o Google está aí pra tirar aquela dúvida na hora de escrever exceção ou qualquer palavra cheia de dígrafos e acentos do nosso complicado português. Veja bem, eu não estou nem cobrando que você saiba usar a crase. Abreviações e gírias são usadas por todos, a ordem dos pronomes no informal tanto faz, tem também o erro de digitação etc. Mas se você me manda uma mensagem de texto perguntando se “agente vai ao cinema”, eu sinto uma dor assim pungente e no mínimo imagino o OO7 adentrando o recinto. Todos chora. Certamente responderei com uma mensagem de duplo sentido tipo “nesse caso a gente não pode ficar junto”.

O top dos tops é o tipo que acha que saber português é coisa de quem fez Letras, afinal quem é de outras áreas nunca parecerá ridículo mandando pérolas como “derrepente” ou “conserteza”, certo? Hehehe ERRADO! [toca a campainha reprovadora do SoletrandoHá o burro internacional, que não satisfeito em assassinar o português, amplia o plano de extermínio pro inglês também. You’re doing it wrongHá ainda o burro acadêmico, aquele que já é até formado, pós-graduado e tudo o mais, tem orgulho disso, mas na certa matou muitas aulas de português no ensino fundamental e por isso ainda não sabe a diferença entre mas e mais, mal e mau. É mandar muito mal mesmo. Com l, idiota.



Você não gosta de ler


Certamente um dos principais agentes causadores do item anterior. Você não tem o hábito da leitura, logo não estranha quando escreve algo errado. E logo nunca lerá o meu blog, assim nunca saberá que eu não gosto disso em você e que entre a gente só vai rolar a brincadeira do silêncio mesmo.

Não há coisa mais sedutora do que uma boa conversa, e quem lê sempre tem coisas interessantes a dizer. Quem me conhece sabe que eu adoro falar sobre livros, então será mutuamente útil se ambos tiverem o gosto pela leitura. Do contrário, eu provavelmente vou soar como a pessoa mais chata do universo e você uma pessoa um tanto vazia, assim teremos sono, muito sono ao conversar.




Você usa personificações e outras figuras de linguagem achando que está sendo romântico


Você diz que “seu coração sorri quando me vê”, você manda “um beijo no meu coração”. Uau, que poeta. Acontece que além de achar tudo isso muito brega, eu tenho a mente fértil, imagino as coisas ao pé da letra e anatomicamente nada disso é legal.

Tô abrindo o coração pra você, seu lindo!


Você tem cheiro de barba


Higiene é tudo, né? Eu tenho o olfato apurado, quase um Grenouille do livro “O Perfume”, de Patrick Süskind. Fazer o quê? Todos que se prezem odeiam o fedor das axilas, do chulé e do bafo, mas além desses eu também abomino o não muito comentado cheiro de barba. De cabelo ensebado, sei lá. Eu acho barba legal, já tive namorados com barba que tinham uma boa higiene e não tinham esse cheiro. Não sei se isso é natural em alguns homens, mas eu não tenho a mentalidade parisiense do século XVIII de que o cheiro do corpo (vulgo cecê) é estimulante e atraente, o que eu acho mesmo que é mera desculpa pra terem as piores catingas, já que inventaram os melhores perfumes. Enfim, abaixo o cheirinho azedo, incluindo o de barba suja!

Grenouille fazendo os melhores perfumes pras piores catingas



Acho que a listinha está razoável. Deixei de fora itens não menos importantes, como o “você quer me converter” e “você ouve música ruim”, mas deixa isso pra outra vez. Pode ser até que eu morda a língua e arrume um tipo que, por ser provido de tantas outras virtudes, eu resolva assumir, alfabetizar, mandar pro Alcoólicos Anônimos e lavar com água sanitária, mas isso será muito, muito improvável. Tenho fé que entre 7 bilhões de pessoas ainda me restam opções livres dos defeitos anteriormente citados. Pra muitos outros defeitos e efeitos, estou aí cheia de carinho e amor pra dar. Ou não, vamos analisar.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012


"Não vive o poeta de sussurrar coisas bonitas aos ouvidos do leitor. Vive de, graças à magia da palavra, revelar e explicar a si mesmo seu próprio ser e suas vivências, sejam belas ou feias, boas ou más."

Para ler e guardar, Hermann Hesse




domingo, 29 de julho de 2012

Sapatos descasados


Tinha mais ou menos doze anos quando um dia se viu só, tendo sido abandonada subitamente pelo pai de Franz. Franz suspeitava que alguma coisa grave havia acontecido, mas sua mãe simulava o drama com palavras neutras e medidas para não traumatizá-lo. Foi nesse dia, quando saía do apartamento para juntos darem um passeio pela cidade, que Franz notou que sua mãe estava com sapatos descasados. Ficou confuso, quis avisá-la, temendo ao mesmo tempo magoá-la. Ficou com ela duas horas pelas ruas sem poder despregar os olhos dos seus pés. Foi então que começou a ter uma vaga ideia do que significava sofrer.

A Insustentável Leveza do Ser, Milan Kundera

Pintura do período azul de Picasso
http://www.pablopicasso.org/blue-period.jsp


Hoje eu vi suas fotos antigas. Elas mostraram seus sonhos despedaçados e suas lutas em vão. Você parou e voltou e tomou diversos caminhos, quando era só seguir um só até o fim. Mas não, você foi feita pra recomeçar, só pra passar mais tempo na estrada. Só por passar. Vi algumas de suas conquistas. Você sorria sempre, mas eu sei que tinha muito mais por trás de uma foto bonita. Pergunto-me se não há algo de estúpido nessa história de sorrir mesmo nas adversidades, quando os sapatos descasados nos denunciam.

Eu vi quando você decidiu ficar, quando você perdeu o voo pra duas semanas depois se ver perdida e ter certeza de que tomou a decisão errada mais uma vez. Vi quando você se sentia enganada, mas ainda assim suas fotos sorridentes pareciam de contos de fadas. Hoje eu sei que era mais do que viagens e lugares. Sim, eu via seus sonhos. E você pode reclamar de tudo, menos de falta de história espetacular pra contar. Foi montanha-russa. Foi céu e inferno. Hoje eu sei que você estava doente, mas um sonho seguido a próprios passos não permite fraqueza. Uma jornada solitária não permite covardia. “Nunca desista!”, que besteira que nos ensinam!  E você seguia bravamente pelos dias com um sapato de cada cor.

Hoje eu quero te dizer que não sei pelo que devo levantar amanhã. Estou sem vontade, sem sonhos, apenas seguindo pela força das coisas, dos órgãos funcionando, dos que sem pena nos forçam a tentar a felicidade porque dependem do nosso bem-estar pra sorrir.  Sabe, eu nunca tive mesmo muito talento pra felicidade. Nunca fui muito boa nisso. Ainda vejo beleza até demais nos dias de chuva, nas músicas tristes, no lado sombrio das coisas. E o "pior", não vejo problema algum nisso. Esse blog mesmo é uma ode à tristeza, com suas devidas fugas porque nenhum ano é só feito de inverno. 

Hoje creio que como Picasso estou no meu "período azul". Olho o mundo lá fora e não tenho vontade de seguir essa ou aquela carreira; eu olho os exemplos e nenhum me inspira. As pessoas expõem felizes seus carros, suas casas, seus filhos, seus relacionamentos, mas tudo me parece uma versão made in Taiwan de um modelo de vida metafísico, que só existe no mundo das ideias. Não sinto inveja, não sinto admiração, não sinto nada. Basto-me na satisfação compartilhada de quem sabe casar os sapatos, esses raros. 

Hoje eu quero te dizer que é melhor encarar o abismo do que flutuar nesse bote inflado de utopia. Eu ainda tomo as pílulas brancas pra dormir sempre que preciso. Sim, eu sou covarde e quando posso me anestesio. Eu cresci, mas ainda tenho medo do escuro. Algumas coisas vão te perseguir por toda a vida. E sinto que sempre haverá essas noites suspensas na ordem dos dias de se revirar fotos antigas e perguntar pro espelho meu se existe alguém mais perdida do que eu.

E ainda assim, sem rumo, eu vou seguir - só não repare nos meus pés.

sábado, 28 de julho de 2012

Final de julho


Final de julho. De joelhos junto o que sobrou nos bolsos pra carregar pro mês que virá. Se será bom? É sinal de que se vive esperar que sim. Em mim as ideias soltas parecem se direcionar, são formiguinhas em fila, uma atrás da outra, tendo certeza que a da frente sabe aonde está indo, e assim vão seguindo rumo a algum lugar. Açúcar? Não, hoje eu quero é paz. Aceitei na minha vida sem mais o doce moderado. Bandeira branca, amor. Continuo de pé porque adotei o morno, o médio. É tédio, mas é a prazo. É fraco, mas é meu. Dieta forçada. Sabotei a minha empada e tirei dela a azeitona. Virou essa coisa meio assim, meio cafona, meio forró sem sanfona, meio início de dor de dente com resquício de temporal. Tá café requentado. Tá estranho, tá banal, tá um teatro de ator ruim. Tá assim, tá assado. Tá frito, mas não tá empanado. Tá cozido só por fora. Tá aurora boreal em preto e branco. Tá chato com cara de santo no pedestal. Essa carne de segunda dá preguiça de mastigar. Manda voltar, garçom, que aqui nessa mesa de bar eu só espero dar a hora. Vou-me embora tomar um quarto e me entender com Morfeu, que agosto já deu sem nem precisar começar.


Cenas de julho


segunda-feira, 9 de julho de 2012

Emaranhado


E no meio de tantos destinos cruzados eu me sinto num emaranhado só. Eu dei tanta corda que deu nó. Agora não dá mais pra desembolar, vai ter que cortar. Não quero excesso, não quero furor: só quero que você secretamente compreenda, que ouça aquela voz interior – é a minha gritando com a sua: suma! - e se afaste sem dizer nada. Que desapareça - plim! – como num conto de fadas. Eu tentei explicar, mas não consegui. Eu mal comecei, mas tropecei e caí. E no meio de tantos eventos inúteis, de tanto tempo perdido com coisas fúteis, eu estou cheia. A gente tem mania de gostar de porcaria, tipo refrigerante, batata frita e gente que não presta. A gente cola um “idiota!” na testa e vai fazendo o que bem entende. Pensa depois que deveria evitar – mas e o sabor? Será que o certo é mesmo trocar o vinho por água e evitar a ressaca? É a verdade tinta e seca que desce pela garganta mas evita a dor de cabeça do dia seguinte. É a água com gosto de nada que amarga madrugada adentro. Na verdade, é como sempre foi: vai dor durante ou depois? Agora eu vou de durante – com muito gelo, por favor.

Floresta de Beckingen, Alemanha

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Brighter days


E já que a gente sempre arruma tempo pra se lamentar, deixa eu contar sobre como tenho sido feliz. Minhas férias prolongadas têm me feito um bem enorme – apesar de sentir muita saudade das pessoas do navio. Eu estou tão leve e feliz que vou até usar um vestido longo e colorido e vou ao banco desbloquear meu cartão, coisa que eu não conseguia fazer há mais de um mês. Estou possuída pelo otimismo do Strangeland e preparada pra drag my heart up to the starting line, acreditando que the day will come e having faith in brighter days. Afinal, se até o Keane resolveu ver o lado positivo das coisas, minha gente, quem sou eu pra ficar pra trás.

E alguém pode querer perguntar a quem ou a que se deve tanta alegria, e eu só posso responder: à minha forma de encarar as coisas. Mais um passo na escalada desse Everest chamado autoconhecimento. Não que não tenham aparecido pessoas lindas na minha vida de uma hora pra outra, não que as coisas não estejam dando certo. Não que eu também não tenha uma certa admiração pelos dias tristes e introspectivos. E não que eu esteja feliz e satisfeita o tempo todo, e que as pessoas me admirem pela minha paz e complacência fora do comum.

Eu andava até preocupada porque alguém ou alguns me chamaram de louca e estressada há uns dias atrás. Eu que sou lerdinha e falo devagar, achei que o título não combinava comigo, então fui pesquisar o porquê de eu estar agindo assim. Então eu me perdoei logo em seguida, porque vi que não há como falar devagar e calmamente com alguém que faz algo que te incomoda profundamente – até deveria ser o certo, mas eu ainda não evoluí a esse ponto. Se eu vir alguém, por exemplo, maltratando um animal, vou voar como louca desvairada no pescoço. Acho cabível. 

Não que tenha sido isso que tenha me motivado a perder a paciência por esses dias – na certa alguém me pediu pra repetir algo que eu tinha falado por mais de 3 vezes, ou tenha rolado simplesmente um desrespeitozinho. Eu me perdoei, mas tenho como objetivo me controlar e fazer a fina frente às atrocidades do dia-a-dia, numa calma no estilo monge tibetano, porque as pessoas vão continuar agindo errado com a maior cara-de-pau e você que sai como a descontrolada da história. Cada qual com a sua evolução, que a minha já me dá trabalho demais. Modo lerda, ativar.

O problema é quando esses aborrecimentos corriqueiros te arrastam pra um estado de letargia tamanha que te cegam, e você vê o problema na xícara de café, na parede do banheiro, na página do livro que está lendo; enfim, tudo perde a forma e fica com a cara antipática do infortúnio. Como isso não me pertence mais, e como eu tenho me admirado orgulhosa com a forma como eu tenho enfrentado as coisas – que continuam com seus altos e baixos de praxe – eu tenho visto muito mais do que problemas nos dias. Tenho visto café na xícara de café, parede na parede e história no livro. 

Ontem, por exemplo, eu fui correr na beira da lagoa e percebi espantada aquela beleza toda à minha volta como se fosse a primeira vez, e olha que eu corro ali praticamente todo santo dia. Eu percebi um degradê no céu, que ia do azul ao amarelo, passando pelo rosa e laranja, que me fez diminuir o ritmo da corrida só pra demorar mais ali. Não teve jeito, tive que correr todo o trajeto de novo pra aproveitar até o último raio de sol. Estava eu ali, ouvindo música, disposta, correndo na beira da lagoa às 5 da tarde. Não havia ficado rica, não tinha conseguido o emprego dos sonhos, não tinha encontrado o homem da minha vida (ou tinha e não sabia) mas era a pessoa mais feliz que eu podia ser.

E pode ser que a vida não me seja tão gentil daqui pra frente. Independente disso, eu vou lembrar que houve um dia em que eu percebi o degradê do azul ao amarelo do céu num fim de tarde, e que encontrei a felicidade ali. Que ela é um sentimento entre tantos outros, e não está num objetivo, não é estática, mas está escondida nos dias, e pode ser achada no dia mais comum de julho. Simples assim.


quarta-feira, 27 de junho de 2012

Ressaca, 1º Ato


[Quero dizer que esse é um evento mais do que superado (com orgulho). Aprendi que reconhecer a própria dor na dor alheia tem uma função quase anestésica e ajuda muito na recuperação. Que seja postado, então, para que quem precise se identifique e saiba que, por mais que doa, há saída. 


E por mais que minha exposição possa ser usada contra mim (oi, bêbada), eu não me importo. É mais fácil fingir ser forte, radiante, feliz. Eu não sou nada disso, não o tempo todo. Na verdade ninguém é, no mínimo engana bem. Regozija-se com a verdade, que sou alguém com altos e baixos, que tenho a honra de expor a minha verdade, goste alguém dela ou não. 


Que seja útil.]

Estou fazendo como a Martha Medeiros em Fora de Mim e escrevendo sobre essa perda. Isso a ajudou, pode ser que me ajude também. Eu que tenho tentado de tudo, da medicina ao curandeirismo, não poderia perder essa oportunidade.

Ontem fez uma semana que a gente se separou. Não sei se posso dizer que a dor é a mesma. Na verdade, sinto que ela evoluiu para algo mais agudo, mais profundo, como um tumor maligno que se espalha para outros órgãos. Pergunto-me até quando. Eu não sei o que fazer contra essa dor. Não há aspirina, não há analgésico, no máximo um calmante e uma Mariana abobalhada e sonolenta pelo dia afora. Não acho que a minha família entenda, escondo deles o que eu sinto para ninguém sofrer por tabela. Meus amigos tem uma vaga ideia. Mas a minha dor, essa é pessoal e intransferível e tem me acompanhado como uma herança descabida, como uma cabeça de alce deixada por um parente, que não combina com a sala, não combina com os móveis, não combina com nada; apenas está ali, tomando espaço e enfeiando o ambiente.

Ontem tentei sair com uma pessoa pela primeira vez. Não haveria algo – avisei com antecedência – e lá fomos nós conversar. Depois de você, minha vida tem sido uma sucessão de eventos malsucedidos. Um espetáculo circense de mau-gosto, pecando pelo sarcasmo, com a vida na plateia a se escangalhar de rir de minhas tentativas em vão de juntar os caquinhos. Passeamos – distantes, obviamente – e vi algumas das suas ex-namoradas e casos, ou sabe-se lá como você as chamou. Todas me escrutinam, reparam no meu vestido, observam de longe como eu vago sozinha e eu por um instante penso que a minha dor é visível e quero sair dali. Sinto-me na posição de um ladrão que tem sua cabeça exposta em praça pública; eu sei que me olham como quem diz “bem-feito”, mas ainda assim eu sinto uma certa compaixão por aquelas mulheres. Sei que todas elas também sofreram por você e mesmo que involuntariamente formamos um exército que compartilha das mesmas cicatrizes de guerra.

Saímos dali. Conversamos sobre como é torturante estar totalmente apegado emocionalmente a alguém mau e indiferente, sem citar nomes. As lembranças vem poucas, doloridas e mancas, e aos poucos tomam força e os eventos começam a fazer sentido, como um quadro de Monet olhado de longe; andei por um bom tempo com a cara colada no quadro. Constatei, não sem uma dose severa de vergonha, como você se aproveitou de mim e me afetou. O palhaço que eu enceno cai da cadeira e quebra uma perna nesse momento. A plateia se contorce de rir.

Chego em casa e sonho que eu estou com a tal pessoa, o coadjuvante do palhaço. É estranho, é dolorido, mas de repente ele se transforma em você e uma sensação de alívio e prazer toma conta de mim, mas eu mal posso aproveitá-la pois a sua imagem logo se esvai e se transforma nele de novo. Acordo sem ar, coração disparado. Você foi um idiota, culpado disso ou não pela inexperiência, e eu não sei onde minha saudade encontra forças para se justificar, mas ela está ali, onipresente, onilatente e onidolorida – palavras que ainda não foram inventadas mas que encontram aqui a perfeita oportunidade para passar a existir.

Tento entender como isso funciona. A pessoa acha uma outra bonita, avalia suas qualidades como um empregador avalia um currículo: hum, vamos ver: fala línguas estrangeiras, viajou, estudou em tal lugar. Boa foto. Resolve que vale a pena investir. Entra na sua vida, explora-a da forma burra como sabe e a devasta. Acha uma outra pessoa, aparentemente mais bonita e interessante que a primeira; o perfil dessa já não se encaixa mais à vaga, sentimos muito. Assim, a primeira é demitida e jogada na rua para que ache um novo emprego. Nova experiência agregada ao currículo: alguns meses na empresa Indiferença, com raras folgas e fins de semana.

São 9 horas. Mais uma vez dormi pouco e mal. Decido enfrentar o dia, ou não: dilema de todas as manhãs. Mais um dia: o espetáculo continua. E essa turnê circense parece que não tem fim.

"Isso a fez compreender que os olhares eram fardos insuportáveis, beijos de vampiros; que fora o estilete dos olhares que gravara as rugas em seu rosto."  

A Imortalidade, Milan Kundera





Mais uma do David Lupton

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Dois lados


Sob a evocação dessas luzes e dessas atmosferas, dessas palavras frias e desdenhosas, dessa gente cheia de escárnio e afetação, toda a música e alegria do dia esvai-se como uma vela apagada, a esperança me parece perdida para sempre, e toda a verdade que eu já tenha descoberto e conhecido parece-me falsa."

07 de junho, 10:23 PM. Vou começar com jeito de relatório policial, mas porque quero ser bem descritiva; porque quero narrar uma conversa que tive com uma pessoa querida, e se digito fervorosamente de madrugada tendo que levantar cedo amanhã é porque não quero perder a memória dessa noite. Quero imortalizá-la na forma de texto, e impedir assim que ela desapareça na tela branca do esquecimento.

Estávamos sentados no refeitório do navio. Contei um pouco do livro que eu estava lendo, e não sei como chegamos ao assunto “eu” - provavelmente porque a minha cara de desânimo tem sido contagiante. Falava sobre como eu sou hipersensível, sobre como tenho me sentido mais castigada do que o normal por eventos externos.  Da minha decisão de não me envolver mais com ninguém até eu estar totalmente pronta, até eu sentir que eu me basto e que não vou criar nenhuma relação de dependência com ninguém. Porque qualquer envolvimento tem sido para mim uma porta aberta para coisas que eu não preciso viver agora. Porque as perdas tem doído mais do que o normal. Essa vulnerabilidade eu preciso manter trancada, pelo menos por um tempo, sabe-se lá quanto. Eu não sei até que ponto pode-se evitar uma dor: uma faca fincada na perna dói, quer você queira, quer não. Por isso tenho mantido o esfaqueador do lado de fora e ponto.

Foi quando ele me respondeu:

- Essa vulnerabilidade tem a ver com as experiências passadas. Você é uma pessoa fantástica. Já viajou para um monte de lugares, já fez um monte de coisas, fala algumas línguas, canta... Por isso eu acho que você é muito crítica com você mesma. Você se cobra demais. 



Eu perdi meus pais e meu irmão num acidente de carro quando tinha dez anos.

(Essa frase me atingiu como um caminhão. Pausa para a Mariana chorar e se sentir estúpida frente aos próprios problemas, tão ínfimos perto dos problemas dos outros).

- Eu tive que virar adulto muito cedo. De uma hora para a outra eu virei o irmão mais velho, fui morar com os meus tios. Eu sinto que perdi uma parte importante da minha vida. Eu vejo as pessoas fazendo coisas, e eu não tive nada disso; eu tive que conseguir meu dinheiro muito cedo. E a dor existe, mas ela se torna suportável com o tempo. Ela se transforma em outra coisa. Mas não adianta querer evitá-la: ela está ali e pronto. O que você aprende é o que fazer com essa dor. Eu aprendi a separá-la dos outros eventos da vida. Se por um lado você fica mais endurecido diante da vida, por outro você cria uma defesa. Sabe, eu penso neles todos os dias.

(...)

Se alguém "supera" algo tão terrível, quem sou eu para não superar uma bobagem como uma decepção qualquer? Não acho sinceramente que o que me faltou na vida tenha sido um acidente trágico para aprender o verdadeiro valor das coisas. Mas isso certamente tornou meu amigo mais forte e menos vulnerável. Porque na minha opinião ele já passou pelo pior; o que mais poderia machucar tanto?

A minha sensibilidade exacerbada é responsável pela minha criatividade, pela compaixão, pela minha imaginação, pela minha capacidade de mergulhar nos livros e na música. Mas a minha dor existe, e eu não sei o que fazer com ela. Ela por vezes me impede de respirar, de levantar da cama, de enfrentar o dia. É exagerada, eu sei. Eu quero viver de forma mais leve, e para isso aqui estou eu jogando fora tudo o que é supérfluo e não me serve mais. Vou viver com o que sobra. Estou aprendendo a olhar para as coisas de outra forma, mas ainda não aperfeiçoei a técnica. Fugir das coisas tem sido a minha forma de defesa mais covarde e legítima. Eu tenho sorte, tenho uma família, tenho muitos amigos, tenho algum talento. Isso deveria bastar.

É o sentido da morte e da solidão, o conhecimento da fugacidade de seus dias, e o enorme fardo ameaçador de sua tristeza, que cresce sempre, que nunca cessa, o que torna a felicidade gloriosa, trágica e absolutamente preciosa"

Thomas Wolfe