quarta-feira, 10 de julho de 2013

"A única realidade é aquela que se contém dentro de nós, e se os homens vivem tão irrealmente é porque aceitam como realidade as imagens exteriores e sufocam em si a voz do mundo interior. Também se pode ser feliz assim; mas quando se chega a conhecer o outro, torna-se impossível seguir o caminho da maioria. O caminho da maioria é fácil, o nosso é penoso." 

Trecho de Demian, de Hermann Hesse

Um minuto de silêncio pelos corações ainda sufocados e calados à força. A redenção está próxima.

http://nasuisaidel.deviantart.com/

segunda-feira, 24 de junho de 2013

A alma hipertrofiada


Nos bastidores da revolução...

"O rapaz que aos vinte anos se inscreve no partido comunista ou que, de espingarda na mão, se junta à guerrilha das montanhas, está fascinado pela sua própria imagem de revolucionário: é ela que o distingue de todos os outros, é ela que o faz transformar-se em si próprio. Na origem da sua luta encontra-se um amor exacerbado e insatisfeito pelo seu eu, ao qual ele deseja dar contornos bem nítidos, antes de o enviar (realizando o gesto do desejo de imortalidade, tal como o descrevi) para o grande palco da História sobre o qual convergem milhares de olhares: e nós sabemos já, pelo exemplo de Mychkine e de Nastassia Philippovna, que sob os olhares intensantemente assestados nela a alma não pára de crescer, de inchar, de ganhar volume, para finalmente levantar voo em direção ao firmamento como um aeróstato magnificamente iluminado. 
O que incita as pessoas a erguerem o punho, a pegarem numa espingarda, a defenderem juntas causas justas ou injustas, não é a razão, mas a alma hipertrofiada. É este o carburante sem o qual o motor da História não poderia funcionar e à falta do qual a Europa teria ficado deitada na relva, a olhar preguiçosamente as nuvens que pairam no céu. "

Milan Kundera, A Imortalidade

domingo, 23 de junho de 2013

A Lei do Eterno Retorno



“E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes: e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indivisivelmente pequeno e de grande em tua vida há de te retornar, e tudo na mesma ordem e seqüência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira!“ Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasses assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que lhe responderias: “Tu és um deus e nunca ouvi nada mais divino!” Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse: a pergunta diante de tudo e de cada coisa: “Quero isto ainda uma vez e inúmeras vezes?” pesaria como o mais pesado dos pesos sobre o teu agir! Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?” 

A Gaia Ciência, Nietzsche


Não há outro jeito. Vou me sentar à mesa, vão todos beber e rir e se sentir completos com fumaça nos pulmões e álcool a correr pelas veias. Vão contar histórias infames e arreganhar seus dentes amarelados ao gargalhar, embriagados e regurgitando desaforos. Juro que vou tentar acompanhar, vou forjar um sorriso aqui e ali, mesmo que nada daquilo faça parte de mim. Juro que a todo custo tentarei estuprar minha personalidade até meus limites. A certa hora, meu sono vai tomar conta e eu vou precisar me afastar. Ou não vai ser sono, vai ser fúria mesmo, e todo o teatro vai desabar, a lona do circo vai cair, o fogo vai consumir o que havia ali, e vou seguir tateando em meio à fumaça o caminho de fuga, buscando a linha tênue que ainda me liga ao que é meu. Vou fatidicamente retornar ao meu mundo, onde posso finalmente ser eu. Vou voltar a ser Agnes, a ser Lobo da Estepe, a ser Tamina, a ser Laura, a ser Sidarta, a ser Demian, a ser Sabina, às paisagens só minhas, às músicas mais que repetidas, a esse mundo por tão poucos compartilhado. É dolorido que meu mundo seja outro planeta. Sempre vai ser dolorido e ilegítimo abdicar do meu mundo para tentar fazer parte do mundo dos outros. Posso no mínimo visitá-los, esses tantos planetas mais ou menos iguais e tão estranhos, mas nunca vou habitá-los. Juro que vou daqui em diante procurar planetas em que eu reconheça ao menos uma rua, ao menos uma árvore seca. Que compartilhem com o meu uma paisagem que seja. Mas nesse eterno ciclo torturante de tentar fazer parte, tudo vai e tudo retorna. 
Veja só essa grande farsa que é viver. Por Deus, eu não vou mais mentir para mim.


"Ela não podia nem se atormentar com suas guerras, nem alegrar-se com suas festas, porque estava impregnada pela certeza de que nada disso era problema seu."

A Imortalidade, Milan Kundera




quinta-feira, 13 de junho de 2013

"Come outside, she said, I think I’m leaving tomorrow afternoon, I’m going far away from here. Come outside, she said, come outside with me, put away your fears, you and me were not meant for bedrooms, you and me were not meant for homes, she said, I’m leaving here tomorrow, please come with me darling, I don’t want to go alone. Come outside, she said, climb out your window, come outside, before the world gets any colder, you and I get too much older, come outside, she said, well, come outside, she said, hey climb out your window, come outside before my momma knows I’m gone, your daddy thinks you're home alone, come outside and run away with me, she said, come outside, she said, climb out your window, come outside if you can't get away, find me some other day, if not today, I'll be on my way. You and me weren’t meant for bedrooms, you and me weren’t meant for these small town afternoons, you and me were meant for leaving, we were meant for highways and sunsets and all summer months so come away come away come away come away outside she said and runaway runaway runaway with me"

Trecho desconhecido incluído na versão ao vivo de Round Here, do Counting Crows, de 10/04/2013 na Sydney Opera House 

http://www.youtube.com/watch?NR=1&v=6PMxpdPLm-k&feature=endscreen

terça-feira, 23 de abril de 2013

Poesia do dia a dia

Coração em rota de fuga

Belamente observado e registrado por um colega de trabalho dia desses no navio. 





Me remete a um trecho da poesia A Flor e a Náusea, de Carlos Drummond de Andrade:

Uma flor nasceu na rua! Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada ilude a polícia, rompe o asfalto
Façam completo silêncio, paralisem os negócios, garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe. Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros. É feia.
Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico. É feia.
Mas é uma flor.

Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Não é uma flor, é um elástico. Mas é a única poesia que brota desse chão de metal.


E você, sabe enxergar a poesia escondida no seu dia? 

quinta-feira, 21 de março de 2013

Mais dia, menos dia

Assim vai terminando mais um dia no navio. Dias a fio, menos um na contagem regressiva pra ir embora.  E ainda nem deu tempo de sentir falta lá de fora. Já foram seis longe de casa. Faltam nove. E em meio à matemática da saudade, é a paz dos dias que me move, ainda que corridos. São sorrisos nos corredores, os chocolates divididos, as brincadeiras do dia a dia. Ainda bem que embarca junto a alegria. Gosto de ver o mar sem fim de qualquer canto, dos barquinhos passando, sentir o vento soprando, trazendo da terra a vontade e levando do mar a falta que a gente sente. É a paisagem insistente de nuvens, pássaros, oceano e aço. É sofrimento e cansaço. É ser ausente. É querer mergulhar no azul profundo, sair nadando, largar tudo. É metade do ano isolada do resto do mundo. É a emoção à deriva. É a indecisão em voltar. Mas nem assim é tão ruim. E o sol vai se pondo quente e a brisa fria vem chegando. E assim vai terminando no navio mais um dia.






"It's the sour and the sweet. And I know sour, which allows me to appreciate the sweet."

Vanilla Sky

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Navio fantasma

Pintura de Anne Penman Sweet

“Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está a nossa vida, e mais ela é real e verdadeira. Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes. Então, o que escolher? O peso ou a leveza?”*

Debruço a estibordo do navio, no meio de uma escuridão que une mar e céu no mesmo abismo infinito. Os olhos aos poucos vão se acostumando à ausência de luz e consigo identificar um leve brilho prateado sobre as águas iluminadas por uma lua distante, emoldurada por nuvens caprichosas cheias de voltas. Vejo as luzes de três barcos. Um bastante próximo, com uma linha de pesca esticada adentrando o mar calmo; um bem mais longe, com uma luzinha piscando num compasso quaternário, e as luzes distantes do que parece ser um navio bem grande, provavelmente outro FPSO, quase na linha do horizonte. Do meu lado esquerdo, a chama tímida do flare. Bem abaixo de mim, a luz prateada do navio onde estou refletida na água, como se centenas de peixes luminosos nadassem ali.

Penso na minha decisão, tão postergada, mas finalmente tomada. Agora já era – pensei. Fiz a minha escolha e abandonei mais uma pessoa. E sempre que eu deixo alguém, sinto-me estranhamente leve, e ao mesmo tempo com uma estranha vontade de ligar, pedir desculpas e tomar a decisão contrária logo em seguida. Sinto falta do peso.

Tenho minha dúvida se esse é um passado que se repete, como se Deus me desse mais uma vez a chance de tomar a decisão correta, de refazer uma lição que ainda não foi totalmente aprendida. Da última vez, eu também agi pela razão, o que deixa essa decisão com cara de erro reincidente. Hoje, vejo que não foi a decisão correta, mas nenhuma era. Hoje, vejo que a melhor decisão teria sido ter ficado sozinha, assim como hoje sei que o melhor caminho a se tomar é um retorno. Não tenho medo de ficar sozinha; tenho pavor é de uma união infeliz. Hoje, vejo que a solidão teria me poupado de muitos problemas. Aprendi que a solidão pesa muito menos do que um amor mal correspondido.

Penso em como me tornei insensível depois daquele cara. Penso em como a pessoa que eu mais pude amar pôde não me amar de volta, como se eu esperasse alguma justiça do mundo.  Em como sempre ponho um fim a tudo com um mínimo sinal aparente de fracasso, pois vi e vejo pessoas tão próximas viverem uma vida infeliz por nunca terem tomado decisão alguma. E viver com o peso do mau exemplo é algo muito sério e muito urgente. É não permitir se omitir, ou seria perseguida pela minha consciência como por cães na neve, sem poder correr, tropeçando a cada três passos e sentindo seus latidos cada vez mais próximos e seus bafos quentes na minha nuca.

Escapei dos cães essa noite. Peço a Deus que ele não sofra, pois eu já estive no seu lugar, e como estive. Foi uma história curta, porém bonita. Tivemos bons momentos, mas é que bons momentos não me comovem mais. Eu desaprendi a amar, e deixá-lo talvez seja a forma mais sincera e legítima de amor que eu consiga praticar agora. Estou salvando-o do apego a um fantasma sem coração. Me sinto grande e insensível. Me sinto uma alma sem corpo flutuando na noite. Me sinto parte daquela escuridão. E essa leveza, essa sensação de não ser de carne, essa falta de sangue correndo nas veias, essa fraqueza, esse nada todo só pode ser digno de um fantasma, habitando esse navio ancorado, sem rumo, sem direção.

"Mas era justamente o fraco que deveria saber ser forte e partir...”*


*Trechos de "A Insustentável Leveza do Ser", de Milan Kundera