quarta-feira, 27 de junho de 2012

Ressaca, 1º Ato


[Quero dizer que esse é um evento mais do que superado (com orgulho). Aprendi que reconhecer a própria dor na dor alheia tem uma função quase anestésica e ajuda muito na recuperação. Que seja postado, então, para que quem precise se identifique e saiba que, por mais que doa, há saída. 


E por mais que minha exposição possa ser usada contra mim (oi, bêbada), eu não me importo. É mais fácil fingir ser forte, radiante, feliz. Eu não sou nada disso, não o tempo todo. Na verdade ninguém é, no mínimo engana bem. Regozija-se com a verdade, que sou alguém com altos e baixos, que tenho a honra de expor a minha verdade, goste alguém dela ou não. 


Que seja útil.]

Estou fazendo como a Martha Medeiros em Fora de Mim e escrevendo sobre essa perda. Isso a ajudou, pode ser que me ajude também. Eu que tenho tentado de tudo, da medicina ao curandeirismo, não poderia perder essa oportunidade.

Ontem fez uma semana que a gente se separou. Não sei se posso dizer que a dor é a mesma. Na verdade, sinto que ela evoluiu para algo mais agudo, mais profundo, como um tumor maligno que se espalha para outros órgãos. Pergunto-me até quando. Eu não sei o que fazer contra essa dor. Não há aspirina, não há analgésico, no máximo um calmante e uma Mariana abobalhada e sonolenta pelo dia afora. Não acho que a minha família entenda, escondo deles o que eu sinto para ninguém sofrer por tabela. Meus amigos tem uma vaga ideia. Mas a minha dor, essa é pessoal e intransferível e tem me acompanhado como uma herança descabida, como uma cabeça de alce deixada por um parente, que não combina com a sala, não combina com os móveis, não combina com nada; apenas está ali, tomando espaço e enfeiando o ambiente.

Ontem tentei sair com uma pessoa pela primeira vez. Não haveria algo – avisei com antecedência – e lá fomos nós conversar. Depois de você, minha vida tem sido uma sucessão de eventos malsucedidos. Um espetáculo circense de mau-gosto, pecando pelo sarcasmo, com a vida na plateia a se escangalhar de rir de minhas tentativas em vão de juntar os caquinhos. Passeamos – distantes, obviamente – e vi algumas das suas ex-namoradas e casos, ou sabe-se lá como você as chamou. Todas me escrutinam, reparam no meu vestido, observam de longe como eu vago sozinha e eu por um instante penso que a minha dor é visível e quero sair dali. Sinto-me na posição de um ladrão que tem sua cabeça exposta em praça pública; eu sei que me olham como quem diz “bem-feito”, mas ainda assim eu sinto uma certa compaixão por aquelas mulheres. Sei que todas elas também sofreram por você e mesmo que involuntariamente formamos um exército que compartilha das mesmas cicatrizes de guerra.

Saímos dali. Conversamos sobre como é torturante estar totalmente apegado emocionalmente a alguém mau e indiferente, sem citar nomes. As lembranças vem poucas, doloridas e mancas, e aos poucos tomam força e os eventos começam a fazer sentido, como um quadro de Monet olhado de longe; andei por um bom tempo com a cara colada no quadro. Constatei, não sem uma dose severa de vergonha, como você se aproveitou de mim e me afetou. O palhaço que eu enceno cai da cadeira e quebra uma perna nesse momento. A plateia se contorce de rir.

Chego em casa e sonho que eu estou com a tal pessoa, o coadjuvante do palhaço. É estranho, é dolorido, mas de repente ele se transforma em você e uma sensação de alívio e prazer toma conta de mim, mas eu mal posso aproveitá-la pois a sua imagem logo se esvai e se transforma nele de novo. Acordo sem ar, coração disparado. Você foi um idiota, culpado disso ou não pela inexperiência, e eu não sei onde minha saudade encontra forças para se justificar, mas ela está ali, onipresente, onilatente e onidolorida – palavras que ainda não foram inventadas mas que encontram aqui a perfeita oportunidade para passar a existir.

Tento entender como isso funciona. A pessoa acha uma outra bonita, avalia suas qualidades como um empregador avalia um currículo: hum, vamos ver: fala línguas estrangeiras, viajou, estudou em tal lugar. Boa foto. Resolve que vale a pena investir. Entra na sua vida, explora-a da forma burra como sabe e a devasta. Acha uma outra pessoa, aparentemente mais bonita e interessante que a primeira; o perfil dessa já não se encaixa mais à vaga, sentimos muito. Assim, a primeira é demitida e jogada na rua para que ache um novo emprego. Nova experiência agregada ao currículo: alguns meses na empresa Indiferença, com raras folgas e fins de semana.

São 9 horas. Mais uma vez dormi pouco e mal. Decido enfrentar o dia, ou não: dilema de todas as manhãs. Mais um dia: o espetáculo continua. E essa turnê circense parece que não tem fim.

"Isso a fez compreender que os olhares eram fardos insuportáveis, beijos de vampiros; que fora o estilete dos olhares que gravara as rugas em seu rosto."  

A Imortalidade, Milan Kundera





Mais uma do David Lupton

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Dois lados


Sob a evocação dessas luzes e dessas atmosferas, dessas palavras frias e desdenhosas, dessa gente cheia de escárnio e afetação, toda a música e alegria do dia esvai-se como uma vela apagada, a esperança me parece perdida para sempre, e toda a verdade que eu já tenha descoberto e conhecido parece-me falsa."

07 de junho, 10:23 PM. Vou começar com jeito de relatório policial, mas porque quero ser bem descritiva; porque quero narrar uma conversa que tive com uma pessoa querida, e se digito fervorosamente de madrugada tendo que levantar cedo amanhã é porque não quero perder a memória dessa noite. Quero imortalizá-la na forma de texto, e impedir assim que ela desapareça na tela branca do esquecimento.

Estávamos sentados no refeitório do navio. Contei um pouco do livro que eu estava lendo, e não sei como chegamos ao assunto “eu” - provavelmente porque a minha cara de desânimo tem sido contagiante. Falava sobre como eu sou hipersensível, sobre como tenho me sentido mais castigada do que o normal por eventos externos.  Da minha decisão de não me envolver mais com ninguém até eu estar totalmente pronta, até eu sentir que eu me basto e que não vou criar nenhuma relação de dependência com ninguém. Porque qualquer envolvimento tem sido para mim uma porta aberta para coisas que eu não preciso viver agora. Porque as perdas tem doído mais do que o normal. Essa vulnerabilidade eu preciso manter trancada, pelo menos por um tempo, sabe-se lá quanto. Eu não sei até que ponto pode-se evitar uma dor: uma faca fincada na perna dói, quer você queira, quer não. Por isso tenho mantido o esfaqueador do lado de fora e ponto.

Foi quando ele me respondeu:

- Essa vulnerabilidade tem a ver com as experiências passadas. Você é uma pessoa fantástica. Já viajou para um monte de lugares, já fez um monte de coisas, fala algumas línguas, canta... Por isso eu acho que você é muito crítica com você mesma. Você se cobra demais. 



Eu perdi meus pais e meu irmão num acidente de carro quando tinha dez anos.

(Essa frase me atingiu como um caminhão. Pausa para a Mariana chorar e se sentir estúpida frente aos próprios problemas, tão ínfimos perto dos problemas dos outros).

- Eu tive que virar adulto muito cedo. De uma hora para a outra eu virei o irmão mais velho, fui morar com os meus tios. Eu sinto que perdi uma parte importante da minha vida. Eu vejo as pessoas fazendo coisas, e eu não tive nada disso; eu tive que conseguir meu dinheiro muito cedo. E a dor existe, mas ela se torna suportável com o tempo. Ela se transforma em outra coisa. Mas não adianta querer evitá-la: ela está ali e pronto. O que você aprende é o que fazer com essa dor. Eu aprendi a separá-la dos outros eventos da vida. Se por um lado você fica mais endurecido diante da vida, por outro você cria uma defesa. Sabe, eu penso neles todos os dias.

(...)

Se alguém "supera" algo tão terrível, quem sou eu para não superar uma bobagem como uma decepção qualquer? Não acho sinceramente que o que me faltou na vida tenha sido um acidente trágico para aprender o verdadeiro valor das coisas. Mas isso certamente tornou meu amigo mais forte e menos vulnerável. Porque na minha opinião ele já passou pelo pior; o que mais poderia machucar tanto?

A minha sensibilidade exacerbada é responsável pela minha criatividade, pela compaixão, pela minha imaginação, pela minha capacidade de mergulhar nos livros e na música. Mas a minha dor existe, e eu não sei o que fazer com ela. Ela por vezes me impede de respirar, de levantar da cama, de enfrentar o dia. É exagerada, eu sei. Eu quero viver de forma mais leve, e para isso aqui estou eu jogando fora tudo o que é supérfluo e não me serve mais. Vou viver com o que sobra. Estou aprendendo a olhar para as coisas de outra forma, mas ainda não aperfeiçoei a técnica. Fugir das coisas tem sido a minha forma de defesa mais covarde e legítima. Eu tenho sorte, tenho uma família, tenho muitos amigos, tenho algum talento. Isso deveria bastar.

É o sentido da morte e da solidão, o conhecimento da fugacidade de seus dias, e o enorme fardo ameaçador de sua tristeza, que cresce sempre, que nunca cessa, o que torna a felicidade gloriosa, trágica e absolutamente preciosa"

Thomas Wolfe


quarta-feira, 16 de maio de 2012

"Faz cessar a tormenta"




 The Storm on the Sea of Galilee by Rembrandt 
O navio pende para a direta e para a esquerda numa cadência fantasmagórica. Tremores esporádicos. Lá fora, neblina de ocultar o horizonte. As ondas parecem pequenas daqui de cima, mas a real proporção delas só é percebida quando se vê um barquinho sendo içado pelas ondas e despencando ferozmente no mar bravio. Tentando distrair a mente e enganar o enjôo, vou procurar algo para fazer e leio algo bem verdadeiro, sem a roupagem dourada dos contos de fada, mas tão cinza como o céu lá fora, sobre o amor.

Eu, que já amei e desamei algumas vezes, que nem falo e sinceramente nem tenho interesse em saber se vivem algumas das pessoas pelas quais eu já abri mão de muitos planos e por quem muitas vezes até deixei de ser eu, não posso deixar de concordar com o que li e levantar com orgulho a bandeira contra essa falácia toda.

Confesso que ponho uma etiqueta imaginária com prazo de validade em tudo o que vivo ou me dizem atualmente. Sei muito bem que tudo vai passar um dia. Isso tira muito a graça das coisas, confesso. Mas ajuda e muito a não alimentar mais o abuso de confiança. Não é que eu não confie mais nas pessoas, é que nada que venha delas faz mais parte do meu foco. O meu foco está em mim. É o que me importa e é ao que eu tenho me dedicado. Fora disso, não sei mais realmente o que vale a pena.

Só o que vem de mim pode me nutrir realmente, e só o que eu alimento pode me destruir; e esse gigante no momento jaz magrinho. Ainda sou capaz de amar, mas não mais esperando um final feliz. Não mais abrindo mão de quem eu sou. Surpreenda-me e prove-me o contrário se for capaz. Mais do que medo de me machucar, hoje tenho pavor de machucar as pessoas. Eu que sempre tive um certo prazer masoquista em quebrar a cara e errar de novo - veja só que covarde eu me tornei.

Acho que é como olhar o mar de cima: só quem está lutando no barquinho contra as ondas sabe o que é uma tormenta, e há até quem tenha prazer em enfrentá-la. Do grande navio eu não sinto muita coisa. Depois de passar por tantas tormentas, eu prefiro me manter num local mais seguro. O caminho pode até me confundir às vezes, mas não me engana mais. E pode ser até que eu fale como leão, mas me sacrifique como cordeiro. É o suicídio nosso de cada dia; mas eu não posso fingir mais que não sei o que eu estou fazendo. É a navalha no pescoço da entrega. Vai encarar?



domingo, 6 de maio de 2012

Memórias de uma fã



Quinta-feira passada (04/06/12) fui ao show do Noel Gallagher no Rio.  Foi lindo, emocionante e um tanto nostálgico presenciar aquele cara fantástico tocar músicas que eu já ouvia no meu walkman de fita cassete (poucos saberão o que é isso) indo para a escola há pelo menos 14 anos atrás. Pois é, quem conhece a Mariana sabe que ela é uma fã inveterada de Oasis. E ao conhecer e reencontrar fãs como eu, que já choraram, riram, confraternizaram, terminaram com o namorado, brigaram com a mãe e acima de tudo se divertiram horrores ao som da banda, estava relembrando a minha trajetória. Tenho certeza de que tem por aí muitos com histórias bem mais interessantes do que as minhas. Ainda assim minha experiência é única e intransferível; são emoções vividas em primeira mão de um fanatismo saudável, mas nem por isso menos exagerado. Vem comigo que eu vou te contar!

Começou em 98, quando eu conheci Don’t Look Back in Anger, do álbum (What's the Story) Morning Glory?, através de um vídeo na MTV do Noel Gallagher tocando uma versão acústica da música. Até então, eu ouvia muito coisas totalmente diferentes como Legião Urbana e Green Day, mas o vídeo de DLBIA bastou para o meu gosto musical migrar de continente e eu ficar apaixonada pela banda de Manchester.

Em agosto do ano anterior o Oasis tinha lançado o Be Here Now, que foi o primeiro álbum adquirido por mim. A partir daí fui entrando no clima mad fer it e nunca mais parei. O Oasis veio ao Brasil em 98, e eu pedi de presente de aniversário de 15 anos desse ano um ingresso para o show. Fui ao Metropolitan assistir a banda e amei. Viciei trocentas vezes mais e aí a coisa ficou séria, minha gente. Não parei mais de buscar freneticamente vídeos, artigos de jornal, revistas importadas, me corresponder com fãs etc.; qualquer fotinho da banda bastava para eu ganhar o dia. 

Troquei muitas cartinhas com fãs como a Nivea Sorensen, que me mandava coisas preciosíssimas como artigos de revistas gringas e fitas cassetes dos singles então raros que de outra forma nunca chegariam aqui na minha provinciana Cabo Frio. Eternamente grata a essa linda que fez a minha alegria por muitos anos! <3

Nesse meio tempo veio a internet e meu acesso às coisas da banda melhorou 100% e eu já não precisava importunar outros fãs para ter acesso ao que meus queridos Gallaghers  faziam, incluindo as suas picuinhas de irmãos brigões. 

Em 2001 foi vez do Oasis vir ao Rock in Rio (era a época do Familiar to Millions), e lá foi a Mariana de 19 anos com muita disposição, alegria, faixinha na cabeça e bandeira na mão. Eu não tinha um mísero amiguinho que gostava de Oasis, então me descabelei no show enquanto meus amigos ficaram com cara de paisagem. Tomei muita lata na cabeça (provavelmente dos entediados fãs do Guns’n’Roses, que subiram depois ao palco) quando meu paciente namorado na época me botou nas costas no início de Live Forever. Foram os 5 segundos mais lindos da minha vida.

Show do Oasis no meu aniversário, em 15/03/2006 - placa que não me deixa mentir.
Se vocês acham que a coisa não tinha como piorar, saibam que em 2006 o Oasis voltou ao Brasil e lá estava a Mariana em êxtase debaixo de muita chuva em São Paulo comemorando o aniversário de 23 anos (sim, o show foi exatamente NO DIA do meu aniversário – presente dos deuses ou o quê?). Nasci de novo. Através desse show e do falecido Orkut (que Deus o tenha) o negócio virou formação de quadrilha - conheci a galera da excursão do Maradona: fãs como eu, ou até mais aloprados, e amigos até hoje, que juntos já fizeram miséria pela banda. Isso rendeu muitos luais Oasis, Carnaoasis, churrascos Oasis, Oasis Days e muitas outras coisas loucas Oasis, até uma banda cover maravilhosa, a Magic Pie. Até hoje tenho amigos-fãs espalhados por todo o Brasil que conheci nessa época.

Em 2008 o fanatismo foi legitimado com uma tattoo no quadril com o nome da minha música preferida do Oasis, Live Forever, que representava, além de outras coisas, meu novo sonho: ir morar na Europa.

Despedida Oasis em 2009...
... com direito a blusinha estilizada com o nome da galera Oasis atrás!
E em 2009 lá fui eu morar na Alemanha (não sem antes fazer uma despedida Oasis, claro), e em maio do mesmo ano comprei por 100 euros de um desconhecido no eBay um ingresso para ver o Oasis no estádio de Wembley, Londres - o que seria meu último show da banda, já que ela infelizmente acabaria no mesmo ano. Foi o ápice da minha carreira de fã inveterada. Passei por muitas aventuras dignas de filme por esse show: dormi na neve, vi a Rainha da Inglaterra, quase fui presa ao tentar pular a roleta da estação do metrô errada em que eu fui parar, saí aos socos e pontapés com fãs, fui atropelada por um fugitivo da polícia (que com a cara estourada e sangrenta, mas ainda assim muito londrino, me levantou do chão e me perguntou se estava tudo bem antes de continuar a fuga), me perdi e caminhei por 3 horas durante a madrugada até chegar ao hostel. Está bom para você? Para mim estava ótimo. Eu tinha visto Oasis em Londres, que se danasse o resto.
Feliiiiz no país dos Gallaghers

Show do Oasis em maio de 2009 em Wembley, Londres
Hoje estou de volta ao Brasil e foi com muita alegria que a Mariana de 29 anos reencontrou os amigos feitos em 2006 e pode assistir ao show de um Noel Gallagher em carreira solo, já cheio de rugas, estiloso como sempre e talentoso como ninguém, entoando seus sucessos no palco do Vivo Rio. Depois de tudo o que eu vivi, tenho finalmente que discordar do Noel, que afirmou num trecho de Don’t Look Back in Anger, aquela música que em 98 me deixou apaixonada pela banda: “Please don’t put your life in the hands of a Rock’n’roll band who’ll throw it all away”. Você estava errado, Noel. Valeu a pena cada minuto. 

Cheers!!!

Obra de arte minha sobre o lago congelado de Losheim, Alemanha
Mais uma obra de arte em Chacaltaya, Bolívia




quarta-feira, 2 de maio de 2012

Sonho de uma flauta



Esse é um trecho do conto "Sonho de uma flauta", do Hermann Hesse, que dedico ao meu tão querido amigo Glauco, que faz aniversário hoje, e a quem também está na estrada da busca espiritual. É sobre um homem que recebe de seu pai uma flauta e sai pelo mundo, vivenciando as belezas e desafios da estrada. Até que segue seu caminho num barco sobre um rio, escuta o canto lamurioso do barqueiro e decide retornar. Aqui está o desfecho, um diálogo entre o homem e o barqueiro.


Escutei e fiquei bem quieto, não tinha mais nenhuma vontade dentro de mim além da vontade do estranho. Seu olhar repousou sobre mim, tranqüilo e com uma certa bondade triste, e seus olhos cinzentos estavam cheios da dor e da beleza do mundo. Ele me sorriu, e então achei nele um coração, e pedi na minha dor:

- Ah, vamos voltar! Sinto medo aqui na noite e queria retornar para onde posso encontrar Brigite, ou para a casa de meu pai.

O homem levantou-se e espiou a noite, e sua lanterna iluminou claramente seu rosto magro e firma.

- Para trás não há caminho - disse sério e amável. - A gente precisa ir sempre para a frente, quando quer penetrar no mundo. E da garota dos olhos castanhos já tiveste o melhor e o mais belo, e quanto mais longe estiveres dela, melhor e mais lindo isso vai se tornar. Ainda assim, segue sempre para onde quiseres, vou te ceder meu lugar no leme!

Eu estava triste demais, e, entretanto, vi que ele tinha razão. Cheio de saudade pensei em Brigite e na minha terra e em tudo que me fora próximo e luminoso e que pertencera, e que eu agora havia perdido. Mas queria tomar o lugar do desconhecido e dirigir o leme. Assim devia ser.

Por isso levantei-me em silêncio e fui andando pelo barco até o lugar do leme, e o homem veio em silêncio ao meu encontro, e quando já estávamos perto um do outro, olhou-me firmemente no rosto e entregou-me sua lanterna.

Entretanto, quando me sentei ao leme com a lanterna do meu lado, estava sozinho no barco; percebi isso com profunda estranheza, o homem desaparecera, e, contudo, eu não estava amedrontado, já pressentira isso. Pareceu-me que o lindo dia da caminhada e Brigite e meu pai e minha terra tinham sido apenas um sonho, e que eu era velho e aflito, e que desde sempre e sempre viajava sobre esse rio noturno.

Compreendi que não devia chamar pelo homem e a percepção da verdade atingiu-me como a geada.

Para certificar-me do que imaginava, debrucei-me sobre a água e ergui a lanterna, e do escuro espelho de água um rosto duro e sério me olhou com olhos cinzentos, um rosto velho, sábio, e vi que aquele era eu.

E como nenhum caminho voltava atrás, continuei seguindo sobre a água escura dentro da noite.

Para complementar, um rio que é tão seu: o Rio Sana. Parabéns, caro amigo!


O conto na íntegra:


http://www.rubedo.psc.br/Artlivro/soflauta.htm



quinta-feira, 26 de abril de 2012

Aliviaram o mundo



"Senti-me diferente imediatamente: em lepidez de voo e dança, mas também calma capaz de parar-me em qualquer ponto. Se explico? Era gostoso e estranho, era o de ninguém transmitir. Tinham aliviado o mundo."

Guimarães Rosa

É simples. Você sabe exatamente o que é mau, e não aceita que ele possa ser tão doce. Não há ao redor dele grades, então por que não? Você escolhe viver aquilo, você cai e tropeça diversas vezes, mas não desiste. Você insiste. Até você resolver extirpar o mau. Vai doer. O pós-operatório não é agradável. Mas você aceita e enfrenta, sabendo que o pedaço de carne podre te pertencia e que o corte ainda não cicatrizou, mas ainda assim tem a certeza inata, alma secreta de todas as dúvidas, de que agiu corretamente e deve aguentar firme porque o doer é agudo mas o recuperar é mágico.

Eu me sinto recuperada - o mundo tem sido muito mais leve. Lembro-me do que passei como se pensa numa dor de dentes: você sabe que havia dor, havia incômodo, mas não lembra exatamente quanto e como; e a mente logo divaga por outros assuntos.

Foi exatamente isso: aliviaram o mundo.

Goodbye, by David Lupton 
[E não é por mal. Não é por nada. É que a terra em cima de ti te cai tão bem...]

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Abandono


Ontem era eu abandonando o velho mundo. Saindo dele pela janela. Arrumando as malas com pressa e deixando coisas para trás. Escolhendo o que doeria menos abandonar. Uma biografia do Hesse em alemão, um Don Quijote em espanhol e outros tantos livros – a perda maior. Deixando também um pedacinho do meu coração no fundo da gaveta, junto ao sobretudo, algumas calças jeans, as botas pretas. Meu casaco preferido, mas não cabia mais um alfinete na mala. A verdade é que quando a gente abandona as coisas por uma vida nova a gente nunca espera que o pior ainda possa estar por vir. Essa burra esperança de que depois de tudo se está esperto demais para errar de novo. Bullshit.

Meses depois e mesmo sabendo, eu achei honesto viver o que eu sentia. Na verdade não deve haver honestidade alguma, pois como diz Kundera “o amor nos engana a todos por uma ilusão de compreensão”. Na verdade, deve ser algo de desconhecido e aleatório que une as pessoas. Talvez seja mesmo a posição dos astros, talvez uma substância invisível, um hormônio ou algo estúpido assim que não merece o meu entendimento.

Dessa vez o pedacinho de coração partido eu deixei ali na mesa empoeirada e cheia de papéis, embaixo de um bilhetinho deixado por mim dias atrás enquanto eu ainda achava que podia fazer alguma coisa. Pensei em rasgá-lo antes de sair, mas não. Por algum motivo deixei-o lá. Deve ter sido pela posição da Lua em Vênus que não permite que bilhetinhos de amor sejam dilacerados - vai saber o que move as coisas. O bilhetinho com certeza não está mais lá, à vista. Foi retirado e o meu pedaço de coração com sorte escorregou para debaixo da cama, ou foi pisoteado e está colado na sola do sapato de alguém, passeando pela cidade neste momento.

Espero que não sobre muito dessa vez, para não servir de munição para uma próxima vez. É muito mais digno um coração dilacerado a um coração suicida com 7 vidas. Não quero um coração de gato, mas um coração de borboleta. Aniquilado de uma vez, morte súbita. Não quero um coração remendado, cheio de mágoas, tentando de novo. É risível, é digno de pena. Que me sobre alguma dignidade, enfim. 

Eu temia esse peso e ouvia em minha alma as palavras de Jesus: não temais o dia seguinte pois o dia seguinte cuidará de si mesmo. A cada dia sua dor.

Em seguida atirei-me na cama e senti um vazio na alma, e fiquei a ponto de chamá-la de volta porque já sentia sua falta no instante em que a expulsava, porque, eu sabia, era mil vezes melhor uma Lucie vestida e rebelde do que ficar sem Lucie.

A Brincadeira, Milan Kundera.